não conte pra mamãe

30.3.06

45

Engraçada essa gente que critica a ida de um brasileiro ao espaço.
Acho que até eu mesmo já critiquei num outro post.
Mas mudei de idéia.
Quanto gastamos com salários de deputados, luz, telefones celulares, para citar apenas alguns gastos de todas as CPIs que mantemos no congresso?
Já notou que nós pagamos para que eles investiguem suas próprias falcatruas?
Estou seguro que é mais dinheiro do que mandar esse sujeito ao espaço.
CPIs que em última analise, não fazem nada. Apenas recomendam o que deve ser feito.
Nosso astronauta, quando voltar, será uma espécie de embaixador no espaço. Vai visitar escolas, inspirar crianças e seu trabalho, por mais inócuo que seja, terá consequencias muito mais positivas que as 165 reuniões da CPI dos Correios por exemplo.

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Boris Casoi escreveu ontem na Folha, que acha que não existem mais motivos para evitar um impeachment de Lula.
Tem razão.
Eu também acho.
Para que manter o presidente?
Depois de tantas falcatruas, para que dar a chance dele se reeleger?
Porque não acabamos logo com essa palhaçada?
Porque diferente de Collor, Lula possui uma sólida base popular.
Assim não vai cair. Ainda.
Porque vai cair na eleição.
Alkimim vai ganhar.
Anote aí o que eu digo.

29.3.06

44

Isso não está certo. Acabo de me dar conta que a maioria das minhas amizades é cultivada e abastecida por escrito.
Tenho e-mail, messenger, orkut. Não escuto a voz de boa parte de meus amigos há pelo menos três semanas. Muitos deles podem, inclusive, sofrer de mudez crônica, que isso não afetaria em nada nossa amizade. Sou um sujeito tímido. Então o fato de esconder atrás de um “from:” ou adiantar o assunto através de um “subject:” são coisas que encaro com certo alívio.
O que me incomoda mesmo é o fato de ter que manter minhas amizades organizadas em pastas. Também não é muito motivador saber que os primeiros quinze minutos do meu dia serão gastos eliminando mensagens que prometem aumentar meu pênis, vender Cialis e Viagra, limpar meu nome no Serasa.
Acho que o sujeito tem que aprender a conviver com os pequenos incômodos que os avanços tecnológicos nos trazem. Junto com os e-mails, vieram os spams, assim como no rastro da lycra vieram, sei lá, as calças legs.
Minha rotina de trabalho, aquela que eu havia desenvolvido com tanta dedicação ao longo de duas décadas, nos últimos cinco anos, mudou radicalmente.
No passado eu trabalhava um dia inteiro e quase não precisava escrever. Não precisava me comunicar por escrito.
Hoje gasto cerca de 6 horas respondendo e-mails. Na verdade estou convencido que o verbo “trabalhar”, no Houais, em breve vai incluir a definição “responder e-mails”.

43

Seu pai era fã do Senna.
Até chorou quando ele morreu.
Acordava cedinho aos domingos e torcia pelas corridas como quem torce pelo futebol.
Assim, quando Wilson nasceu, já havia decidido que o filho seria piloto.
O papel de parede do quarto do bebê era todo quadriculado, como uma bandeira de chegada.
Wilson cresceu cercado de miniaturas de metal, autoramas e carros de controle remoto.
Quando aprendeu a ler, ganhou uma assinatura da Quatro Rodas.
A mãe, coitada, nem discutia a mania do marido.
O automobilismo em Wilson não foi uma escolha.
Era mais como parte da vida: família, escola, amigos e carrinhos.
Ao completar dez anos, Wilsinho ganhou um kart de verdade.
Não era um desses in-door.
Era um kart profissional, com box e tudo, numa pista para crianças-piloto lá da Granja Viana.
“Foi assim que o Senna começou”, contava o pai para os amigos.
A bem da verdade, o box era até mais impressionante que o kart.
Tinha fotos tamanho natural do Wilson segurando o capacete, vestido no seu uniforme azul marinho, com a marca da empresa do pai. Tinha equipamentos e ferramentas importadas. E dois motores.
Na entrada, tinha uma faixa enorme com seu nome:
Piloto - Wilson Máximo.
Foi nessas fotos que vi o Wilson pela primeira vez.
Estava passeando pelo kartódromo e aquele box, saltava aos olhos. Como não havia ninguém, arrisquei uma espiada por trás do toldo negro.
Tudo organizado, tudo cirurgicamente limpo.
Continuando meu passeio, qual não foi minha surpresa quando cheguei ao bar e dou de cara com o próprio Wilson, sentado numa mesa comendo Cheetos.
Não sei porque, mas no momento que o vi, pensei que se ele fosse mais velho, poderia estar fumando.
Era mais baixo do que na foto e estava visivelmente acima do peso, pois o zipper do uniforme estava arrebentado bem na altura do umbigo. Estava debruçado sobre a mesa devorando os salgadinhos enquanto folhava sem interesse uma revista de automobilismo.
Quando poderia valer seu autógrafo em alguns anos?
“Você é o Wilson, não?”
Ele levantou os olhos, cansado como um adulto.
“Sou”, respondeu sem parar de mastigar.
Sentado ao seu lado, estava uma mistura de motorista da família e segurança com cara de enfado.
“Vai lá Wilson. Já passou da hora do treino.”
Wilson nem respondeu.
“Você treina sempre?”, perguntei.
“Todo dia.”
“E corre há muito tempo?”, perguntei.
“Três meses”.
O motorista sem mover a cabeça olhou para o céu com desdém.
“Eu vi seu box...impressionante. Você deve ser bom.”
Wilson pegou mais um punhado de salgadinhos.
“Você está no campeonato?”
“Estou. Mas não me classifiquei para nenhuma corrida ainda.”
“Você gosta de correr?”
O garoto olhou pela janela do bar em direção à pista e fez que sim com a cabeça.
Ficou um segundo olhando para fora, aí olhou para mim, pensou em falar alguma coisa, de repente virou-se para o motorista e disse:
“Freitas, pede outra Coca pra mim?”
O motorista se levantou e caminhou lentamente até o bar.
Wilson voltou para a revista.
Fiquei olhando para o Wilson com certa pena.
Resolvi esperar uns anos para pedir o autógrafo.

24.3.06

42

Gosto de ler os artigos da Rosely Saião.
Escreve na Folha sobre educação infantil.
Esta semana, trata de um tema interessante: o fato das famílias grandes estarem desaparecendo, dando lugar a famílias com um, no máximo dois filhos.
Entre outras razões, é óbvio, está o custo proibitivo relacionado à produção e criação de mais um ser humano.
Mas não foram questões econômicas que me chamaram a atenção para o texto.
O que é interessante são as conseqüências desta constatação aparentemente irrelevante.
Com menos filhos, a síndrome do filho único, super-protegido e tratado a pode-tudo, assume dimensões epidêmicas.
Raro é ter muitos irmãos e ter que aprender na marra os valores de viver em grupo.
Os pobres diabos que nasceram, nestes tempos de solidão, em famílias numerosas passam a ser os anormais.
Onde já se viu você não ter seu próprio playstation? Como assim? Tem que dividir com seus irmãos? Eu hem!
Confesso que eu, filho único convicto, nascido numa época em que poucos de nós saíam da pelada com os amigos sem ser abertamente agredidos com ofensas como "mimadão", "bebezinho-da-mamãe" e outras expressões impublicáveis, já havia percebido este fenômeno.
Com certo orgulho, me sentia uma espécie de pioneiro.
Até que fugi do padrão e tive três filhas.
É certo, e Rosely Saião destaca o fato, que quando os novos pais de muitos filhos têm condições, apressam-se para dar a cada um de seus rebentos, condições especiais.
Compram casas com 5 ou 6 suites, para que cada filho possa ser tratado como único. Uma TV de plasma, uma estante de carrinhos para cada um e assim vai.
Não foi o que aconteceu em casa.
Lá, tudo é de todos.
Ou todas, já que eu não me incluo nesse coletivismo forçado, fiel que sou às minhas origens.
Incrível como brincam juntas, dividem as bonecas, convivem em miserável harmonia.
No quarto, dormem amontoadas, as vezes na mesma cama.
Já peguei as três usando até a mesma escova de dentes.
Mesmo quando insisto em tentar mimá-las um pouco, negam veementemente.
É difícil conviver com o irritante socialismo das minhas três filhas.
Coisa completamente fora de moda, que seguramente vai trazer conseqüências no futuro.
Não faço idéia de como corrigir esse desvio de caráter.

19.3.06

41

Falcão é um documentário triste.
Não é sobre o tráfico.
É sobre roubar a esperança de várias gerações.
Quem tem dinheiro parou de enxergar.
E é fenômeno globalizado.
Quem está vivo quer o mínimo, senão vai arrancar a qualquer custo.
O recado está dado.
Está dado pela Al Qaeda e pelos morros do rio, passando pelos acampamentos do MST.
Se quem tem não ve isso, vai perder.
Sejam os americanos com suas twin towers, sejam os grandes proprietários de terras invadidas, ou nós mesmos, com nossos filhos adolescentes mortos.
Os meninos do Falcão estão aí.
Não ganham fortunas.
Ganham trezentos, quinhentos reais.
A solução é simples.
É ridícula até.
É só dar dinheiro para essa gente.
É só dar escola, comida e trabalho para que saiam dos guetos.
É só fazer que seu futuro seja ao menos uma possibilidade.
Não é simples? Claro que é.
É só dinheiro, escola e trabalho.
Coisas que se consegue com um mínimo de boa vontade.
Coisas que a gente mitificou.
Mas que com um mínimo de união, são fáceis de conseguir.
Eles só querem essa esperança.
Só querem ver a gente se movimentar.
Só querem uma rede-do-bem para cercá-los e protege-los.
Cabe a nós criar essa rede.
Eles só querem isso.
Empresários e cidadãos precisam pagar esse preço, porque ainda está barato.
Há que se reunir as mães desses orfãos e contar com seu apoio.
E aos poucos, esvaziar do tráfico essa mão de obra, que não será mais barata.
Temos que torná-los necessários.
Se continuarmos cegos, surdos e calados, com o véu do tráfico escondendo essa realidade, em breve o preço será impagável.
Cabe a nós pagar para suas vidas valerem a pena.
É só isso que eles querem.
E quem não quer?

17.3.06

40

Para comemorar o novo layout e o quadragésimo post, aí vão algumas gotas de sabedoria.
Algumas foram fornecidas por alheios outras são, pretensiosamente , de minha própria lavra:

Semêm-analfabeto é quem não sabe porra nenhuma.
Atualmente, quanto mais falar pouco melhor.
Idealismo é o que vem antes da experiência. Cinismo é o que vem depois.
Contra fax não há argumentos.
O peixe é o último a reconhecer o aquário.

Por hoje está ótimo.

15.3.06

39

O Exército provou que não está brincando.
Negociou com o Comando Vermelho.
Até a polícia teme a mais importante facção criminosa do país.
Mas não o exército.
Numa prova de que sabe negociar, aceitou as exigências dos bandidos e recuperou os modernos e importantes armamentos.
Não bastasse o fato de terem sido roubados, agora pedem favores e aceitam exigências de bandidos.
Ainda por cima se dispõem a um exercício teatral ridículo, fingindo que as armas estão no morro de uma facção adversária.
Isso sim é que é exército.
Não usa a força bruta.
Negocia com o inimigo.
Na remota possibilidade de entrarmos em guerra, pode ficar tranqüilo que nosso exército vai buscar os meios menos violentos para terminar o conflito.
Se for com o Paraguai, quem sabe entregamos o Rio Grande do Sul, para evitar briga.
Não temos presidente que sabe falar direito.
Não temos um congresso honesto.
E agora isso.

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Adoro ver footage do presidente Bush.
Sempre tenho a impressão de que ele pode, a qualquer momento, fazer uma besteira ou falar alguma asneira.
Nem nisso tivemos sorte.
Com nosso presidente, não existe o suspense.

9.3.06

38

Você pode dizer que o lugar do Exército é no quartel.
E eu concordo.
Que Exército não é polícia.
Concordo.
Que Exército na rua é Guerra Civil.
Assino embaixo.
Começou com 600 homens do exército nos morros.
Agora já são 1.600.
8 morros ocupados.
50% de redução no roubo de carros.
40% de redução nos assaltos a ônibus.
E agora?
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Estou com insônia.
Comprei um remedinho natural para dormir.
A bula diz que devo tomar meia hora antes de dormir.
A que horas devo tomá-lo?

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Estou com insônia.
Comprei um remedinho natural para dormir.
A bula diz:
“O remédio pode causar sonolência. Se este efeito ocorrer, não opere máquinas.”
Mas e se o efeito não ocorrer?

7.3.06

37

Crash é o melhor filme do ano.
E não vi Brokeback.
Nem vou ver.
Não é filme para se ver no cinema.
É para se ver em casa, em DVD.
É mais confortável, porque você não precisa ficar mostrando que é heterossexual para o cara da poltrona ao lado.
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Mach Point é genial.
Como tudo que Woody Allen fez, menos casar com a Mia Farrow.

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Pela ordem, os melhores seriados de TV que já assisti são “Nós e o Fastasma”, “Curb your Enthusiasm” e “Lost”.

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Nesse país tudo vira polêmica.
A mais recente é a do candidato do PSDB ao governo.
Não entendo porque parece grave que Serra e Alkimin disputem a indicação do partido.
A notícia é dada em tom de crise, como se o partido estivesse rachando.
Que mal há em ter mais de um candidato para a campanha?
Não é assim em todo o mundo?
Estamos tão acostumados à escassez de talentos em nossa política que quando aparecem dois candidatos com chance, vira notícia.