não conte pra mamãe

21.7.06

69

Talvez alguém por aí não conheça o significado de Catch 22.
Catch 22 é a cilada burocrática que impedia os pilotos de caças americanos da segunda guerra de pedir baixa.
Funcionava mais ou menos assim: só um piloto louco deveria parar de voar.
E só um piloto são pede para parar de voar.
Assim, como um piloto que pede para parar de voar não pode estar louco, então não pode parar de voar, percebe a lógica?
Catch 22 virou filme, traduzido por aqui como "Ardil" 22.
Depois de ver o resultado de Cannes deste ano, lembrei do roteiro de Buck Henry.
Não exija profunda pertinência em minha analogia.
Foi apenas uma dessas livre-associações que um dia terão explicação melhor, num divã ou um numa mesa de bar.
O fato é que não ganhávamos prêmios suficientes para alimentar nossos famintos egos, então fazíamos peças fantasmas. Agora, nem nossas peças fantasmas são premiadas.
E os fantasmas que ganham, nos antecipamos em retirar por "questões éticas".
Enquanto isso, o mundo continua se auto-premiando, com suas peças dignas, pertinentes e legitimas.
A verdade é nua e crua, só que como também é gorda e peluda, temos medo de encará-la de frente.
E sempre que se tem medo de bater de frente, surge essa sugestão:
"Vamos sentar e discutir melhor esse assunto."
Discutir exatamente o que?
Que somos um país pobre? Que nossas maiores contas são de varejo? Que nossa TV está virando um tablóide eletrônico? Que nosso povo é 80% analfabeto? Que, exatamente por isso, o que críamos deve ser rasteiro e óbvio? Que nossas emissoras não permitem inovações de formato? Que a globalização nos impôs conceitos globais que não dialogam com nossa cultura?
Depois do vareio que tomamos da França, ainda tem gente que acha nossa seleção a melhor do mundo.
Propõe-se também uma ampla discussão.
E para que?
Já sabemos a conclusão: "somos uma seleção brilhante que não sabe jogar em conjunto"
Na discussão sobre o fiasco em Cannes, já sabemos a conclusão: "somos brilhantes criativos, só não estamos conectados aos prêmios".
O que nos mata é essa nossa Galvão-Buenisse.
Somos uma geração derrotada.
Em Cannes e na Copa.
Durma-se com um barulho desses.
E não é com conversa que se resolve o problema.
Alias, acho mais fácil resolver o problema do futebol do que o de Cannes.
No futebol, um pouco de vergonha na cara resolve.
Na propaganda, não falta vergonha e estou seguro que o esforço foi grande.
Por isso mesmo não vai ser fácil sair dessa.
A solução, ao contrário do futebol, não será de dentro pra fora.
O mundo está fascinado com sua própria inteligência.
E nós não estamos incluídos.
Prêmios em propaganda estão se transformando num luxo.
Um luxo a que tem direito os países que têm não apenas bons criativos, mas também um mercado estável, uma indústria consumidores preparados para mensagens cada vez mais elaboradas.
E nós só temos os bons criativos.

4.7.06

68

– "Como é que tá lá?"
O sujeito cujo nome não lembro me cumprimentou com a tradicional expressão que no léxico corporativo é o equivalente-politicamente-correto para algo como "E aí? Ferrou?".
Respondi com a única resposta aceitável na ética dos encontros rápidos:
– "Tudo bem, e lá?"
– "Levando." – concluiu meu anônimo conhecido.
E assim nos despedimos.
Ele certo de que não há nada de novo cá.
E eu certo de que não há nada de novo por lá.
O que não deixa de ser uma boa notícia, pelo menos para os americanos que consagraram o no news is good news.
O fato é que, em ano de Copa do Mundo, eleição e feriados em profusão, estamos todos na expectativa.
Todos temem que, além da desclassificação, vacas magras venham aí.
Como afirmou Schopenhauer ou Luana Piovani: “a convicção é a maior inimiga da verdade”.
Então, antes de me convencer de minhas próprias conclusões, fui pesquisar as tendências.
Ao que parece, o mundo lá fora (que não inclui o Brasil, obviamente) evoluiu.
Na crise, ao invés de demitir, preferem aumentar a demanda.
E trago provas.
Em uma pesquisa realizada por uma grande agência de propaganda, entre seus principais clientes no mundo, mais de 60% optaram por estratégias de geração de demanda ao invés de redução de custos (um eufemismo para cortes de pessoal).
Chegou também às minhas mãos um estudo da McKinsey realizado em 1.200 empresas em todo o mundo.
Segundo esse estudo, a cada ponto percentual de acréscimo de volume de vendas, o lucro cresce 3,7%.
Em contrapartida, se esse mesmo ponto percentual for utilizado para "cortar custos", o lucro cresce apenas 2,7%.
Em português claro: vender mais dá mais lucro do que mandar gente embora.
O documento garante ainda que, se o tal ponto percentual for utilizado para subir o preço do produto, na média dessas 1.200 empresas, o resultado será um acréscimo de lucro da ordem de 11%.
Enfim, o importante é que, at the end of the day, como diria boa parte de meus companheiros de trabalho, aumentar o preço ou correr atrás de clientes é muito mais lucrativo do que cortar pessoal.
Que coisa mais antiquada!
A gente aqui achando que "menos é mais" e o mundo civilizado correndo atrás de consumidores.
Não sei se isso vai valer por aqui.
Afinal, mandar gente embora é muito mais fácil.
Só é preciso uma planilha de Excel.
Já para conquistar mercados, a gente tem que trabalhar.
Boa parte do mundo já entendeu este recado.
Demitir não é a solução.
A solução é vender mais.
Nós, parreiristicamente, insistimos.
O fato é que nos demos muito mal na Copa, tentando jogar nosso futebol.
Não fomos lá muito bem em Cannes, tentando fazer nossa propaganda.
Que tal se na hora de cortar pessoal a gente der uma de macaquitos só para variar e imitar o resto do planeta?
Só para variar.

67

A urna eletrônica pode parecer um grande avanço.
Coisa de primeiro mundo.
Mas não é.
É só a pasteurização, a binariarização do seu direito de expressar-se.
Na urna eletrônica, a infinidade de possibilidades, resumem-se às disponíveis.
Só se pode votar em quem é candidato. Ou votar nulo.
E isso não é democrático.
Afinal, o voto é uma mensagem.
É aceitável que se tenha o direito de votar em quem se queira.
Não quero soar antiquado, nem retrógrado.
Não estou sugerindo voltar ao papel.
Mas as urnas deveriam fornecer um campo aberto além da multipla escolha numérica.
O eleitor deveria poder optar por preencher este campo votando em quem quisesse.
Eu, por exemplo, votaria no Serra para presidente, mesmo que ele não fosse candidato.
Seria meu silencioso recado ao PSDB.
Acho que tenho esse direito.
Sem essa opção, perde-se muito de nosso direito e de nossa criatividade.
Aquele jacaré do Tiête, nunca mais terá chance de se eleger deputado, coitado.

1.7.06

66

Equilibrar a bola na nuca.
Virar cambalhota com a bola presa no joelho.
Passar o pé, pedalar, rebolar.
Esse negócio de fazer embaixada ficou ridículo.
Isso não é futebol.
Um amigo meu foi jogar contra o time dos filhos.
Aquela pelada que assusta qualquer um com mais de trinta.
Onze velhos, contra onze moleques.
Pais contra filhos.
Sempre foi difícil ganhar.
Quase impossível.
Antigamente os moleques corriam demais.
Deixavam os velhos no chinelo.
Hoje não é mais assim.
Ficam os garotos tentando dar dribles improváveis,
enquanto os velhos, pragmáticos e objetivos fazem os gols.
Seis a dois pros velhos foi o resultado do jogo do meu amigo.
Coisa triste isso que a Nike está fazendo com uma geração de garotos.
Transformando talento no campo em talento de circo.
Ronaldinho, na Copa, para fazer jus à fama, se esforça, tropeça e cai.
Pobre Ronaldinho.
Pobres malabaristas.
Isso não é futebol.
Joguem feio brasileiros.