não conte pra mamãe

12.1.06

34

Meu amigo Prince teve um dia de merda.
Começa na praia, em Fortaleza, onde ele passou o ano novo.
Está lá o Prince com seus três melhores amigos, tomando o sol nordestino.
A menos de 10 metros, uma beldade de 22 aninhos.
Os amigos do Prince, acostumados com a empáfia das mulheres paulistas, acham que ele não tem a menor chance.
Desafiam Prince a conseguir o telefone da garota.
Prince caminha os dez metros que os separam, com a elegância de quem só usa Havaianas uma vez por ano.
Senta-se ao lado da jovem e começa sua função.
Poucos minutos depois, para descrença geral, Prince volta, macho alfa.
“Não consegui o dela. Mas passei o nosso.”
Vaia leve.
Segundo sua história, a garota ligaria à noite.
Nova vaia.
Fade in. Fade out.
Nove e meia.
Estão todos em casa, repletos de hormônios, prontos para sair.
Toca o telefone e é a mulher.
Enquanto Prince tenta falar com ela, seus amigos gritam à sua volta como índios.
Prince não consegue ouvi-lá, recém divorciado e sem prática, comete o primeiro erro.
“Perai...deixa eu acalmar os idiotas daqui e eu já te ligo.”
Prince desliga.
Ao mesmo tempo, lembra-se que não tem o telefone da garota.
Perdeu.
Fade in. Fade out.
Horas passam e Prince está no bar com os amigos.
Desistiu da garota, que nunca ligaria uma segunda vez.
Prince bebe, os amigos riem e ele lembra da garota e lamenta seu erro estúpido e quem é que desliga o telefone de uma gracinha daquelas, afinal?
Prince levanta da mesa cambaleante, vai embora do bar, certo de que se caminhar pelas ruas, vai dar de cara com a garota e salvar sua noite.
Mas não é o que acontece. Segundo erro.
Duas quadras longe do bar, tudo escureceu num piscar de olhos.
Prince pisa numa tampa de bueiro.
“Flop” descreveu no dia seguinte o ruído que a tampa fez ao abrir, engoli-lo e fechar sobre sua cabeça, deixando Prince a dois metros de profundidade, sozinho, bêbado, num buraco fétido e escuro, cercado de ratos e baratas nordestinas.
“Flop. Abriu, me engoliu e fechou”.
Foram duas horas e meia até que alguém o encontrasse, imundo, suado, bêbado e gritando por socorro no fundo do bueiro.
Quando chegou em casa, os amigos estavam desesperados.
Haviam chamado a polícia e os hospitais, a procura de Prince.
“Vocês ocuparam o telefone o tempo todo?”
No fundo, Prince ainda tinha esperança que a garota tivesse ligado de novo.
Mas não ligou.

1 Comments:

At 9:35 AM, Anonymous Anônimo said...

Escrita a história ficou mais interessante que contada.

Com um pouco mais de detalhe na birita, poderia ser um bukowski de verão brasileiro.

 

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